Aí, depois de quatro anos sem postar nada, escrevendo só nos papeizinhos das gavetas, guardanapos de pub, mensagens de celular; quatro anos achando que tava sofrendo de branco crônico; quatro anos achando que ia precisar benzer pra voltar a publicar qualquer coisa. Enfim, de repente a gente desiste de entender e descobre - porque normalmente a gente só descobre quando desiste - que a dificuldade nunca esteve em escrever. A dificuldade da pessoa sempre foi ter que se explicar. Esse bom-mocismo atávico de menina mineira que auto-pressiona a gente a se desdobrar em justificativas, desculpas esfarrapadas, álibis, pedidos de perdão e outras tantas churumelas. Ter que se explicar dá muito mais trabalho do que escrever. E parafraseando uma grande amiga, dessas raríssimas pra quem nunca achei sentido em me explicar: "Aninha, eu nem tô concorrendo a miss simpatia nem nada." Pois é, ora vejam, nem eu.
*
10 anos desde a primeira vez que me fascinei com o então novíssimo conceito dessa coisa que é um blog. Pirei no tal do blog. Sabia que ia me levar um tempão pra conceber o que tava rolando. Uns falavam em laboratório da escrita, diário virtual era então um termo uau, eu pirei tanto que fui pra Inglaterra com um projecto de doutorado sobre blog embaixo do braço, há no mínimo três encarnações, em 2007. Achava tudo o máximo. O mundo girou e girou e girou freneticamente, de modo que, bem resumidamente, um blog é um tipo bem comum de site, e um site pode ser qualquer coisa ou coisa nenhuma. Esse aqui por exemplo é coisa nenhuma. Minhas anotaçõezinhas aleatórias no mundo. Porque tem quem toque gaita, quem apanhe flores, quem bata bolo, quem pegue a estrada a esmo e há os que escrevam. Gente, mas que alívio é a simplicidade das coisas. Ufa.
*
Desde pequenininha achei que o momento da chegada, principalmente o da chegada de quem volta, aquele momento mesmo dos cumprimentos, olá, como está a vida, e o maldito "conta o que aconteceu", esse sempre foi um momento desconfortável que eu esperava passar logo. O preço mais alto que paga quem vai embora é esse desconforto da chegada, e aliás um grande filtro que separa as pessoas dos pouquíssimos amigos é a ausência desses formalismos. Bom mesmo é quando finalmente se reacostumam à sua ordinária presença, quando voltam a tomar consciência instintiva de que o que aconteceu, em qualquer parte e em qualquer tempo, não é contável. Bom mesmo é quando finalmente te pedem que passe pra cá um pão, faz favor. E quando, entre longos silêncios, ânimos acalmados, volta-se a falar em amenidades.
*
Uma hora da manhã. Calça de pijama de palhaço. Unhas vermelhas pra teclar melhor. Velas, incenso, vinho com coca light. Conexão de internet mais poderosa do cardápio da lojinha. A tela do trabalho versus a tela da procrastinação. O prazer solitário da madrugada. O prazer indescritível de uma boa madrugada. Quer dizer, certamente muita coisa mudou. Mas mais certamente ainda, nada mudou tanto assim.
*
"O bom do caminho é haver volta. Para ida sem vinda basta o tempo."
Mia Couto
